quarta-feira, 15 de maio de 2013

A paz invadiu o meu coração

Hoje faz exatamente duas semanas que saí de Mumbai e meu coração se alegra de saudade daquele mês maravilhoso e transformador que passei por lá. A Índia que conheci é pobre, suja e caótica, e, para piorar, minha experiência naquele solo sagrado foi bastante desafiadora, por motivos que ao longo dos posts contarei. Mas, por incrível que pareça, foi exatamente no meio daquela confusão toda que encontrei o maior tesouro da minha vida: a PAZ!
Antes de ir, sentia que esta viagem teria gosto de volta para casa, de reencontro com algo que já conhecia bem. Tanto que não havia ansiedades nem expectativas...dentro de mim existia apenas um sentimento estranho e novo de que tudo estava certo. E realmente estava.
Hoje, quando me olho e comparo com o que era até então, não me reconheço. Porém, gosto muito desta nova pessoa que surgiu, sem muitas projeções para o passado ou futuro, vivendo mais centrada no presente e plena de amor e gratidão. A sensação de paz e tranquilidade que experimento é algo totalmente novo em minha vida, e agora me surpreendo com as novas reações que tenho frente aos velhos e conhecidos estímulos que me sempre me rodearam.
Claro que não mudei completamente da noite para o dia, e alguns padrões de pensamento e comportamento ainda se repetem fortemente, mas algo mudou verdadeiramente dentro de mim. Ainda não sei o que é, mas sei que é bom.
Foi uma pena ter parado de escrever o blog lá na Índia, enquanto vivia as experiências e as tinha bem fresquinhas em meu coração. Mas prometo, a partir de agora, resgatar cada instante importante desta jornada para compartilhá-lo com uma vantagem mega ultra power blaster: fotos!
Recebam meu abraço carinhoso, desejando-lhes um excelente dia!
Namastê!
 


 

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Madrugada

Ok. Sobre o grupo, somos 5 mulheres. 3 são mais velhas que eu e 1 é mais nova. 2 são do Canadá, 1 da Polônia, 1 da Índia e eu do Brasil.
Nossa agenda é super cheia, com atividades o dia inteiro, e eu quase não tenho tempo para fazer outras coisas, como acessar a net, por exemplo. Começamos às 7 da 'madrugada' com yoga (ásanas), depois café da manhã, break e massagem. Ao meio dia tem meditação e, logo em seguida, almoço. Voltamos às 15 para alguma aula teórica, com temas variados, depois yoganidra, jantar e break. Aí encerramos a noite com canto de mantra das 20:30 às 21:00, e eu já fiquei cansada só de descrever o meu dia....
Essa noite eu perdi o sono e fiquei pensando sobre esta agenda apertada, que me estressa um pouco pois, além de não oferecer muito tempo livre, ainda me impede de sair para qualquer lugar. Para dar uma ideia do que estou falando, ontem foi ano novo aqui e eu não pus a cara nem perto do portão...
Claro que a Ana Renata de sempre já encontrou mil motivos para reclamar e querer que as coisas sejam do meu jeito. Mas durante a madrugada, enquanto tagarelava comigo mesma em pensamento, me dei conta que esta é uma excelente oportunidade para mudar e reagir de forma diferente às coisas que não me agradam. No lugar de querer modificar os outros ou as situações externas a mim, dessa vez serei eu a mudança, e penso que já comecei bem.
Perto do amanhecer, troquei a confusão mental pela meditação e, pasmem, consegui me concentrar por 15 longos minutos......um recorde! Depois, fui a primeira a chegar na aula de yoga e agora estou aqui escrevendo depois do café, com tempo de sobra para me arrumar para a massagem. Quem me conhece bem sabe que eu tenho dificuldade em administrar o tempo, e ter meia hora de intervalo entre uma atividade e outra, sem pressa ou afobação, é um verdadeiro ganho para mim.
Aos poucos as pequenas mudanças vão acontecendo e os grandes resultados aparecendo. E assim seguem os dias aqui na Índia, nesta jornada de profundo encontro comigo mesma, cheia de desconfortos e descobertas, mas repleta de alegria e gratidão.
Namastê!

Ano Novo

Sim, definitivamente estou usando este blog para fazer um detox nos sentimentos ruins que ficaram guardados em mim durante os três últimos anos da minha vida. Algumas pessoas sempre me pediam para escrever esta história, mas eu nunca me sentia confortável para fazer, pois, vivendo a situação, ficava difícil  intelectualizar sobre ela. Quando vc sente dor, desconforto, alegria, esperança, vc simplesmente sente, e pronto.
Mas agora, a 8 horas e meia de distância, minhas recordações surgem com os tratamentos e eu estou curtindo muito compartilhá-lhas aqui neste blog, especialmente porque posso olhar para trás sem dor, mágoa ou tristeza.
Hoje é ano novo na Índia e eu desejo que este novo eu que está nascendo tenha muitos anos de vida para contar muitas histórias.


quarta-feira, 10 de abril de 2013

Ainda sobre a verdade...

Engraçado que o assunto de ontem rendeu pano pra manga dentro de mim, até se resolver de uma forma amorosa e pacífica. Eu não tinha reparado que havia assimilado apenas metade da informação, porque o que a professora me disse mesmo foi que eu estava com baixa vitalidade no corpo, enquanto minha mente e meu espírito trabalhavam a todo vapor.
Depois de 3 anos de tratamento intenso, com 20 sessões de quimioterapia injetável e 5 meses de quimio oral, eu não poderia mesmo esperar muita coisa do meu corpo. Mas o medo da morte, que me rondou durante muito tempo, ainda hoje compromete o meu entendimento das palavras, pois quando a professora disse 'baixa vitalidade no corpo', tudo que entendi foi: sua vida tem pouca energia vital.
E isso ocorre freqüentemente com todos nós, pois é muito comum vermos os conflitos entre os humanos acontecerem por falha na comunicação, uma vez que a interpretação da mensagem é sempre feita por quem a recebe, com base em suas experiências e crenças. E aí é que o bicho pega, pois quase sempre estamos fechados em nosso casulo egoico, sem espaço para o novo, para o outro e para as diversidades da vida.
Depois de chorar bastante, receber massagem e conversar com o médico, eu consegui esvaziar-me dos sentimentos ruins e só aí pude ouvir a mensagem como ela era, sem stress, e perceber que a professora não tinha dito nada demais. Dizer que eu estava sem vitalidade no corpo, além de ser verdade, não tinha nada a ver com morte ou coisa parecida. Simplesmente era um jeito de dizer o quanto meu corpo está fragilizado, e ponto. E se foi exatamente por isso que eu vim para cá, para desintoxicar o corpo e rejuvenescer as células, por que então eu dei uma volta tão grande diante de um ponto tão pequeno? 
Ai, ai, nós, humanos.......ommmmmmmmmmmmm!




Verdade

Eu tenho uma amiga que costumava me dizer assim: Ana, por favor, para de falar a verdade para as pessoas, porque elas não querem ouvir....dentro de mim, eu nunca entendi porque alguém não gostaria de ouvir algo que fosse para o seu bem, até ouvir uma 'verdade' vinda de alguém, ontem.
Na aula de meditação, eu estava com uma certa dificuldade em seguir a voz da pessoa com a minha respiração e, ao final, a explicação da professora foi porque eu tinha baixa vitalidade.
Hã? Como assim? Na hora, o único pensamento que tive foi: com que direito alguém que eu não conheço diz algo tão profundo sobre mim? Que autorização tem alguém para materializar algo sobre a minha vida de uma forma tão contrária ao que sinto ou penso? E aqui começa a minha história...
Dizem que não adianta fugir dos problemas, pois onde quer que estejamos, eles estão lá, claro, porque os problemas sempre estão dentro de nós. Em nenhum momento eu vim pra Índia a fim de fugir de algo. Meu objetivo era simplesmente mudar o ambiente,  a fim de dar um choque nas minhas células diante de tanta diferença, para ver se elas paravam de se comportar como de costume. E é claro que eu sei tudo o que eu tenho, afinal de contas, todas as emoções, sensações, pensamentos e energias estão dentro de mim.
Mas com câncer ou sem ele, uma coisa é certa: é preciso encarar a vida com coragem, pois minha amiga tinha razão ao dizer que as pessoas não gostam de ouvir a verdade. Mas eu não me refiro aqui à verdade dita por alguém, e sim àquela que está bem dentro de nós e que não conseguimos fugir dela.
A voz interior fala conosco a todo instante. Porém, não são todas as pessoas que estão disponíveis para ouvi-la. Quantas vezes alguém ou alguma situação já confirmou o que já era sabido dentro da gente? E quantas vezes deixamos a nossa intuição passar batida, sem dar- lhe a devida atenção?
Fato é que encarar aquela verdade que só nós sabemos é mesmo desafiador. Mesmo que machuque, uma coisa eu posso garantir: ela não mata, liberta. Talvez fosse sobre isso que Jesus falava...
Por isso, um bom remédio para as nossas doenças atualmente pode ser encarar a verdade da vida de frente, de cabeça erguida e coração aberto...pois, fazendo assim, quem sabe, ela nos libertará.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Kaivalyadhama

Somente agora me dei conta que não falei nada sobre o lugar que estou. Então, aqui vai um breve resumo:
O Kaivalyadhama fica em Lonavla, Índia, no meio do caminho entre Mumbai e Pune. É uma escola reconhecida e mantida pelo governo indiano, pois eles foram pioneiros no estudo científico do yoga e contribuem substancialmente com as universidades daqui. O seu fundador foi médico de Gandhi, e o terreno onde o Kdham existe hoje foi doado por ele, o grande pai da Índia. Inclusive, as notas de dinheiro daqui tem o rosto dele estampado nelas. Dele, eu digo, de Gandhi.
Aqui é muito parecido com uma ecovila. Tem a escola de yoga e a escola para os filhos dos funcionários, o hospital, a biblioteca, o restaurante, lojinhas, os alojamentos e quase todos os funcionários daqui moram dentro do ashram. 
Eu estou hospedada num quarto single com tv, ar condicionado e o nascer do sol bem de frente para a minha janela. A estrutura é simples, mas boa. Porém, a maioria das pessoas fica nos alojamentos do prédio central, com banheiro coletivo.
Todo domingo eles recebem pacientes que ficam 1 semana fazendo tratamento e recebendo instrução todas as noites. São diversas palestras, uma mais interessante que a outra.
No meu caso, eu participo de um grupo fechado, especialmente desenvolvido para o detox do câncer. Mas isso é assunto para outro post que, inclusive, será o próximo.
Agora preciso ir para a massagem......rsrsrsr....ruim, né?

Aqui está o link do site deles para vcs poderem olhar com calma e, quem sabe, planejar uma vinda pra cá.
Namastê!

www.kdham.com

Yoga

O tratamento teve uma abertura oficial no domingo, mas as atividades só começaram pra valer mesmo hoje, segunda. Às sete da manhã tivemos a nossa primeira aula de yoga e só essa experiência já rende um post inteiro.
Eu pratico yoga desde 2001, e movida pela paixão por ele e seus benefícios, em 2007 resolvi fazer o curso básico de 2 anos para formação de instrutores. Não que eu tivesse intenção de dar aula de yoga, mas o objetivo era aprofundar meus conhecimentos e poder montar minhas próprias aulas onde quer que eu estivesse. Acontece que eu mudei pra João Pessoa logo depois do fim do curso e não encontrei lá nenhum lugar para praticar e, como a indisciplina me acompanhava, infelizmente, acabei abandonando o yoga. 
Quando descobri o câncer, tentei fazer alguma coisa sozinha seguindo um livro do Deepak Chopra, mas o cansaço me impedia de ir adiante e eu decidi ficar só com o Pilates mesmo. E olha que já foi grande coisa...
Enfim, alguns anos depois de abandonar meu amigo, me deparo com todas as dificuldades físicas que a rádio e a quimio me presentearam. Dores, dificuldade de movimento, falta de elasticidade, etc, etc, etc. Eu costumava ter uma flexibilidade excelente, e o meu problema, antes do câncer, era justamente conter os movimentos, pois eu era capaz de ir além da conta com facilidade. 
Hoje, ao perceber que não conseguia sequer mover a perna para um lado, chorei...de emoção. Primeiramente por estar viva e ter a chance de recuperar meu corpo com o tempo, e, em segundo lugar, por pensar na quantidade de pessoas que o yoga pode recuperar utilizando movimentos tão simples quanto respirar. É inacreditável como uma simples mexida de ombro para cima e para baixo, feita com atenção, pode aliviar dores terríveis. E alivia.
Eu sempre amei o yoga por ele ser simples, fácil e respeitar meus limites. Agora, vendo o quanto ele pode auxiliar na minha recuperação, amo mais ainda. E ter a chance de praticar e aprender com mestres tão especiais como os daqui é uma honra, pois esta escola é o lugar mais antigo do mundo que estuda o yoga cientificamente. Eles possuem diversas pesquisas mostrando os benefícios da prática regular do yoga e muito mais....
Estou aqui há 4 dias e já aprendi coisas que em 12 anos não cheguei nem perto. E ainda tenho 20 dias pela frente...poderia ser melhor?
Namastê!





Marhaba

Sabe aquela velha história da pessoa que rodou o mundo procurando a felicidade? Então, também penso que não precisamos sair do lugar para acessarmos o nosso interior, mas às vezes precisamos sim. E foi isso que me moveu até o outro lado do mundo, a fim de me distanciar de todas as coisas relacionadas ao câncer e aos últimos três anos da minha vida. 
Eu não me lembro como descobri esse programa de desintoxicação para pacientes com câncer, mas lembro perfeitamente do sentimento de certeza que tive quando o li pela primeira vez. Engraçado que tinha guardado um dinheiro para usar em algo que me desse muita satisfação, especialmente porque fazia muito tempo que eu não tinha um salário regular, e todas as coisas que me apareceram antes não eram fortes o suficiente para me mover. Porém, quando vi que o valor do tratamento era exatamente a quantia que eu tinha guardado, tive a certeza que aquela era a hora certa para usar o dinheiro.
Sendo assim, um mês e meio depois de muitos depois, cheguei em Dubai para fazer a conexão para Mumbai e dei de cara com a palavra que definia bem o meu momento: MARHABA.
Marhaba é uma saudação de boas vindas, um olá, como vai....vc vem sempre aqui? Ser recebida por ela era, para mim, como se a vida estivesse me dizendo hello novamente, especialmente após tantos tchaus, tantas perdas e despedidas.
E é com ela que eu saúdo você, fazendo um convite especial para mergulhar comigo nesta aventura da vida, repleta de saúde, amor e vontade. 
Farei o possível para atualizar este blog todos os dias e compartilhar com meus amigos, antigos e novos, todos os passos desta jornada. Sendo assim, my friends, escolham seus assentos, relaxem os cintos e boa viagem!



domingo, 31 de março de 2013

Mar sem fim

"Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sobre o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos e simplesmente ir ver."

Mar sem fim - Amir Klink

(texto enviado por minha madrinha na véspera de minha viagem, para eliminar de uma vez todos os medos e ansiedades que rondavam meu coração)